quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Catolicismo e perenialismo


Por André Abdelnor Sampaio.

Não é nada incomum encontrar nos autores perenialistas uma tentativa de encaixar o Cristianismo em categorias diversas às que a própria Revelação cristã apresenta. Isto repercute em todos os capítulos da Ciência Sagrada e da teologia filosófica que a embasa, a começar pelos pilares da Fé católica: a  Santíssima Trindade e a Divindade de Jesus Cristo, passando pela Mariologia; teologia fundamental ou apologética;  eclesiologia, Beatitude que fundamenta a moral geral e consequentemente a moral especial, desembocando necessariamente na economia Salvífica e Sacramental. Não pretendemos esgotar neste espaço cada uma das subversões do perenialismo em relação a cada um destes capítulos da Teologia, mas iremos abordar aqui brevemente o âmago da distorção perenialista no que se refere à concepção de “ortodoxia” que se conecta intimamente com o alcance da exposição do Evangelho, como se verifica neste trecho do perenialista William Stoddart:

 

"Assim como a moralidade, a ortodoxia pode ser universal (conformidade à verdade em si mesma) ou específica (conformidade às formas de determinada religião. Ela é universal quando declara que Deus é incriado, ou que Deus é absoluto e infinito, e é específica quando afirma que Deus é Trinitário (Cristianismo)."- William Stoddart (perenialista e autor do texto que achadoi no site divulgador do pensamento perenialista com ênfase em Schuon, em uma obra sobre o Cristianismo e islamismo).

 

Para responder a este trecho, é preciso primeiramente notar a absoluta deformação da Revelação Católica. O erro absurdo fundamental da frase acima está na má compreensão do seguinte Fato: O Catolicismo (kata-holós; conforme o Todo; universal) é a Única Religião que não combina com nenhum tipo de perenialismo, ecumenismo “esotérico”, muito menos “exotérico”, e correntes afins. Justamente porque não existe "ortodoxia específica" se tudo que é Católico é Universal, tudo o que é ortodoxamente católico é ortodoxamente universal. Essa distinção perenialista entre universal e específico não se adequa jamais com o Catolicismo justamente porque o Catolicismo não é uma religião como as outras. É a Religião, é aquela que prega que a Verdade em Si se fez Carne. Por isso tudo o que é "específico" do Catolicismo, é, por definição, universal.

 

Tudo o que é Católico é conforme a Verdade em Si. Perenialistas sempre veem o Catolicismo como uma "forma" ou "via exotérica" tradicional particular entre tantas outras "vias particulares" para se chegar ao Absoluto. Mas isso não é o Catolicismo, dizer isso é negar a Encarnação do Verbo. É negar que o Absoluto assumiu a natureza humana. É negar que a Verdade correspondente ao Verbo de Deus é Uma Pessoa Divina Encarnada! Então, tudo o que é conforme a forma do Catolicismo, é conforme a Verdade em Si Mesma. Não há "ortodoxia específica" na Religião verdadeiramente Universal que não pode ser outra senão aquela que tem as notas de Unidade, Santidade, Catolicidade, e Apostolicidade: a Santa Madre Igreja Romana, única Igreja de Cristo, única religião positivamente querida por Deus. E este único Deus verdadeiro é Essencialmente, Universalmente, Trinitário em Pessoas e Uno e Simplíssimo em Substância. E não de acordo com uma via específica, mas de acordo com a totalidade da Verdade. O que o perenialismo faz é reduzir o que eles consideram a "verdade em si", em proposições artificiais que não correspondem ao que o próprio Cristianismo apresenta sobre si próprio. O perenialismo concebe a Revelação de Cristo de maneira distorcida e falsificada. como "um modo" de expressar esta Verdade Incriada, ou uma "etapa gradativa/penúltima" da manifestação de uma “Verdade nua e supraformal”. mas isso vai frontalmente contra a frase de Jesus Cristo quando Ele mesmo diz "Eu sou Verdade". Ora, Cristo diz que existe Unidade essencial na Verdade e a Sua Pessoa, e não falou apenas relativamente segundo Sua Humanidade, pois a sua própria Humanidade é hipostaticamente unida à Pessoa Divina que é una em substância com a Pessoa do Pai e do Espírito Santo. Cristo afirmou ser a Vedade em sentido absoluto, essencial. Cristo afirma de maneira inequívoca que há uma Unidade Essencial entre as Três Pessoas em Deus, que distinguem-Se realmente Uma da Outra por oposição de relação, e não quanto à substância divina em si mesma. As Três Pessoas Divinas, não são um "símbolo" para expressar Deus, não são um "modo poético específico" para "manifestar" a Verdade Incriada. A Trindade Santa é O Único e Verdadeiro Deus, fora do qual e além do qual não há nada nem ninguém. 

 

Jesus Cristo é o Filho de Deus Encarnado que remove qualquer barreira formal e essencial entre "esoterismo e exoterismo", justamente porque Ele é a Sabedoria Incriada que se Encarnou e que vem revelar todos os Mistérios divinos. Perenialistas não aceitam a Encarnação do Verbo tal como realmente se deu, como realmente testemunham os Apóstolos e todos os verdadeiros discípulos de Jesus Cristo, confessando como sempre professou a Igreja. Não aceitam os perenialistas que o Absoluto se tornou Visível e habitou entre nós. Eles não aceitam que a Revelação Plena e Final de Cristo vem do Céu para a Terra e se expressa de modo suficiente e infalível ao modo humano de conhecer pelas fórmulas dogmáticas, de cima para baixo, custodiada pelos órgãos autênticos do Magistério eclesiástico. Os perenialistas concebem que o Cristianismo é uma mera forma particular que expressa em seus dogmas verdades penúltimas em relações a uma doutrina que se pretenda “superior” ou “sobreposta” (ou ao menos a uma compreensão essencialmente sobreposta) ao que é definido pelo Magistério, como se houvesse um “magistério paralelo” peculiar e restrito apenas para “iniciados”, e outro magistério comum para os “vulgos” ou “profanos”, contrariando mais uma vez o que disse Cristo, que nada ensinou em segredo, e ordenou que Seus discípulos pregassem claramente, pelos telhados o mesmo conteúdo que Cristo inicialmente lhes ensinou em parábolas de maneira reservada somente para fins pedagógicos e segundo a condição espiritual que se encontravam, mas sem discriminação essencial de conteúdo. Tanto foi assim que Cristo enviou com o Pai o Espírito Santo em Pentecostes para manifestar a plenitude da Verdade, confirmar os Apóstolos em Graça, e assim dar início à missão pública da Igreja.

 

A prova da veracidade desta afirmação é que todos os santos católicos, todos os dogmas da Igreja, toda a Fé dos Católicos desde sempre era baseado de que na Boa Nova de Jesus Cristo está Universalmente (Catolicamente) presente para todos os povos em todos os tempos a totalidade da Verdade. Primeiro porque Ele disse ("Ninguém vem ao Pai senão por Mim".), e também porque "n'Ele habita Corporalmente a Plenitude da Divindade". Um cristão desde sempre tinha de crer nisto para ser considerado cristão, do mais rude ao mais douto; do mais simplório ao mais intelectualmente qualificado. Logo, não existe uma atividade do Verbo Divino à margem da Humanidade de Cristo, pois a humanidade é assumida junto à Natureza Divina na Unidade de Sua Pessoa, que é Divina.

 

O Verbo Divino não "está em Cristo" no sentido de "participação gradual, não-plena, e não-total". o Verbo Divino É o próprio Jesus Cristo. Se Cristo é o Verbo Divino, nada há "além" d’Ele. E n'Ele há toda a Revelação. Mais: Tudo o que há de materialmente verdadeiro em outras religiões é antes de tudo, católico.

 

O Catolicismo jamais foi, jamais será, uma mera "expressão particular", uma "forma exterior e específica" de mostrar a Verdade, mas é a Religião da Verdade Encarnada. A metafísica não-dualista do perenialismo é falsa e errônea mesmo em âmbito natural, e não coaduna com a Revelação.  Eis a Frase de São João da Cruz, grande místico Católico que confirma de forma exata tudo isto que foi explicado:

 

"Quem quer que queira aproximar-se de Deus e viver a vida divina, não procure senão ouvir a voz de seu Filho, que é a sua única Palavra: “Porque em dar-nos, como nos deu, seu Filho, que é sua Palavra única (e outra não há), tudo nos falou de uma só vez nessa única Palavra, e nada mais tem a falar, (...) pois o que antes falava por partes aos profetas agora nos revelou inteiramente, dando-nos o Tudo que é seu Filho. Se atualmente, portanto, alguém quisesse interrogar a Deus, pedindo-lhe alguma visão ou revelação, não só cairia numa insensatez, mas ofenderia muito a Deus por não dirigir os olhares unicamente para Cristo sem querer outra coisa ou novidade alguma”

 Provavelmente um perenialista que ler isso vai dizer que isto que escrevemos é um "exoterismo dogmático"; um "moralismo exotérico" mas o motivo disso é devido justamente a falta de compreensão, ou de aceitação que o Verbo se fez Carne, pela falta de adesão da inteligência à verdade revelada, em uma palavra: infidelidade. O Deus Altíssimo veio à terra e fez-Se Deus-Conosco, e com isso rompeu toda e qualquer barreira entre "exotérico e esotérico", dando a todos a plenitude da Revelação e de modo Final, Universal, e trazendo a verdadeira beatitude para qual todos os homens foram criados, de forma Exclusivamente universal sempre por meio de Sua Igreja Católica Apostólica Romana.

 O perenialismo (em quaisquer de suas versões), além de ter como referencial uma metafísica falsa, de cunho panenteísta (que vê de maneira mais ou menos explícita uma espécie de “união hipostática” entre o mundo e Deus, algo que é na verdade propriedade exclusiva da Pessoa Divina do Filho, Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem), comete uma impostura ao querer forçar uma versão falsificada do Cristianismo baseado em esquemas artificiais com categorias incompatíveis para expressar a Revelação definitiva de Deus pela Encarnação plena do Verbo Eterno em Jesus Cristo em que Igreja Católica é Sua Única Esposa, e Seu Corpo Místico por todos os séculos dos séculos.


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